Poder e Dever

As normas não escritas de uma sociedade, ou de uma família, são fundamentos essenciais da construção das relações desse âmbito. O respeito poderia até ser escrito como uma lei, mas será que as pessoas iriam seguir o que ela determina? Afinal, o que de fato estaria sendo determinado por ela?

É muito fácil fazer tudo o que é permitido sem questionar se aquilo deveria realmente ser feito. Será que porque posso, devo? Deveria era pensar nas consequências. Segundo Steven Levitsky & Daniel Ziblatt, em seu livro Como as democracias morrem, quando autoridades começam a se valer de brechas das normas escritas para fazer o que querem, impondo o seu pensamento sobre o dos outros, os pilares da democracia começam a ruir. Em um mundo tão diverso como este em que vivemos, a maneira que lidamos com as opiniões contrárias são fundamentais para a manutenção de uma boa convivência. Quando o inteiro se divide em partidos, corre-se o risco de acreditar que os que pensam diferentes são inimigos, perde-se a oportunidade de debater ideias e crescer com as diversidades de opiniões e pontos de vista a respeito de um assunto.

A cooperação definha e, ao invés disso, temos uma exacerbação da competição entre as pessoas, até quando existe uma boa ideia no lado oposto, vigora um sentimento negativo, de não querer que àquela ideia prospere, pois como poderia, eu, querer que meu inimigo vença qualquer batalha? É isso, tudo vira uma batalha, comemora-se cada vitória com suor e sangue, motivados por uma polarização que, no fim das contas, existe só na cabeça das pessoas.


Existe um conto de um rei, muito vaidoso, que se sentia superior à todos. Um dia, este rei passando com sua carruagem por um campo – onde havia ocorrido uma batalha – contava aos seus companheiros de viagem a respeito do rei que havia morrido na batalha. Contou de suas incríveis conquistas e de seus feitos considerados heróicos, bem como de todos os bens e riquezas que angariou enquanto viveu e reinou. Uma das pessoas que viajava com ele, apontou para um dos esqueletos humanos no chão e perguntou:

– Seria esse o rei que falas?

O rei deu de ombros e respondeu:

– Não tenho como saber

Então seu companheiro lhe respondeu:

– No fim somos todos iguais, não importando se somos reis ou escravos.


Então mesmo quando posso, devo me perguntar se é o certo a ser feito, sabendo que até assim estou sujeito a erros, pois com todos os defeitos, sei que não sou perfeito. Em um mundo onde tantos parecem saber de tudo, frequentemente julga-se a opinião alheia com uma sentença para cada cabeça. Não tenho bola de cristal para saber do futuro, o que vejo são valores e princípios que busco cultivar em mim, funcionando como uma bússola nesse grande rio da vida, por onde eu possa me guiar e orientar.

As regras não escritas, o respeito que até poderia ser escrito sem a certeza de ser seguido, um valor tão fundamental e esquecido. Saber respeitar a opinião do próximo e também daquele não tão próximo, mesmo tão diferente, é o que busco fazer. Espero que assim façam outros, sem metralhadoras e fuzis para espantar os que pensam diferente.

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